Manhãs de sábado
Conferem paz.
Desaceleração.
Momento fugaz de eternidade.

De leituras silenciosas —
Seja dos livros que me perseguem ao longo da semana,
Seja da leitura reflexiva sobre mim mesma,
A vida com suas questões
E manejo constante, inevitável.

Nesses dias de sábado,
Ainda quando o sol se ergue, largando sua timidez,
Perdendo a proximidade da linha do horizonte,
Também me perco em pequenos gestos:
Água na chaleira,
Fogo ligado,
Pó de café no coador…

O início do assobio,
Ao sinal de fervura da água,
Me arranca da vigilância física de braços cruzados,
Que, sem pensar em absolutamente nada,
Só desfrutava de observar-me desfigurado
No reflexo da chaleira de alumínio.

Em movimentos circulares,
Deposito no coador o primeiro jato de água quente.
Os olhos fixos no encontro da água com o pó preto,
Espero a recompensa de ter meu olfato invadido
Por esse cheiro que me leva para longe
Em fração de segundos.

Lembro exatamente de todas as pessoas
Com quem já ritualizei esse momento.
Volto para uma cena comum da minha infância:
De pé, ao lado do fogão à lenha,
Segurando minha caneca,
Espero o chorinho do coador de pano
Que minha avó já me passa
Ao ver a garrafa se completar
Desse líquido mágico e encantador,
Sem me dizer uma palavra.

Espero a última gota saltar,
Desprendida do coador de pano
Em direção à caneca.
Abrindo a garrafa bege
Com tampa e fundo marrom,
Me sirvo com alegria de mais uma dose desse licor,
Me certificando que tomarei uma boa quantidade.

Sento-me na extremidade do pilão,
Que, virado com a boca para baixo,
Torna-se um banco grotesco,
Mas aconchegante,
Na pequena cozinha de fora.

Minha avó, por sua vez,
Já com sua caneca abarrotada de café,
Está encostada junto ao fogão de lenha.
Sob a chapa quente de duas bocas,
Dividem as labaredas e o calor das brasas,
O caldeirão de leite
E a cuscuzeira enorme de barro.

Estamos, cada uma,
Olhando para um ponto do pequeno cômodo:

Eu, pela porta estreita que se alcança a sala, com uma mesa que mal cabe seis lugares —
O quadro do santo que minha Vó dizia que salvava o povo entalado – da espinha de peixe na guela e do bocado grosso de feijão com farinha e carne de bode assado nas brasas, molhado no caldo quente de pimenta e semente de coentro macerado no prato.

“São Brás, São Brás… na panela ainda tem mais.”

Minha Vó, olha através da porta à sua frente,
O fim do terreiro recém-varrido
Com vassoura de talos de alecrim.

O café era, de certo modo,
A recompensa pela primeira tarefa cumprida.

Envolvidas apenas no barulho do fogo devorando a lenha,
Que estala e se consome sem resistência —
No relógio empoeirado pendurado
Sob a porta entre a cozinha e a sala,
São 6h da manhã.